quinta-feira, 3 de março de 2016

EXISTE SEMELHANÇA ENTRE O BRASIL DE 94 E A ESPANHA DE 2010?

*por Adriano Oliveira


Carlos Alberto Parreira era um visionário.
Sua seleção (que sem Romário nas Eliminatórias correu sério risco de não disputar a Copa do Mundo dos Estados Unidos) não enchia os olhos, normalmente vencia pelo placar mínimo e era pouco convincente. Mas ela inaugurou um novo jeito de pensar e de jogar futebol. O mais curioso é que Parreira nunca foi jogador. Era um preparador físico e um estudioso do esporte. Mas conhecia a fundo a seleção brasileira. Havia trabalhado como auxiliar de Zagallo na campanha do tricampeonato em 1970, no México. Acompanhou toda a evolução e as guinadas de percurso do Brasil. Da magia de 70 à falta de identidade em 74. Do esquema quase "militar" de 78 ao retorno do futebol-arte em 82. Da fórmula desgastada e repetida de 86 ao uso da força em 90. Parreira tinha a missão de recuperar o prestígio do "país do futebol" que estava há 24 anos sem um título mundial. E, para isso, precisava fazer algo diferente de tudo o que havia sido feito desde junho de 1970.
Vicente Del Bosque vivia situação parecida 16 anos depois.
Sua Espanha estava finalmente no centro das atenções ao conquistar a Eurocopa de 2008. Mas faltava uma Copa do Mundo.
Del Bosque, ao contrário de Parreira, foi jogador da própria seleção espanhola nas décadas de 70 e 80. Sisudo, concentrado e firme, também tinha de fazer algo diferente. E, além de inspiração, também precisava de uma sensibilidade a mais que seu gênio forte não lhe dava para fazer da "Fúria" campeã mundial pela primeira vez.
Ironicamente, o castelhano de cara amarrada foi buscar esse "algo a mais" justamente na Catalunha, no Barcelona de Pep Guardiola que encantava o planeta. Usou o mais catalão dos times como modelo para sua seleção. E o futebol da força física, que tanto caracterizou a "Fúria" na história das Copas, foi finalmente substituído  pelo toque de bola.
E essa é a notável semelhança entre as duas seleções campeãs mundiais de 1994 e 2010. O controle total do jogo. O passe e a posse da bola.
Dunga era o cão de guarda da defesa que passava a bola de lado. Mazinho e Zinho saíam do meio para frente carregando-a e esperando pelas investidas dos laterais Jorginho e Branco. Leonardo ou Raí, quando estavam em campo, se deslocavam de um lado para o outro, em movimentos pacientemente coordenados, até um deles encontrar algum espaço para deixar Romário ou Bebeto em condições de fazer o gol ou servir um ao outro. O time vencia. Com placares magros, é verdade, mas qual a importância disso se a sólida defesa formada por Aldair, Ricardo Rocha, Mauro Silva e Tafarell raramente tomava gols? Ademais, eram apenas 7 partidas em 30 dias para se chegar ao título. Uma caminhada curta.
O elenco de Parreira não tinha, claro, os mesmos talentos individuais que o time de Del Bosque. É quase absurda uma comparação entre os "inhos" que conduziam a equipe brasileira de 1994 (Mazinho e Zinho) com Xavi e Iniesta, os cerebrais donos da bola da seleção campeã de 2010.
Porém, de algum modo, a fórmula de manter quase que integralmente a posse de bola já estava sendo consagrada pelo time campeão de Parreira. É claro que a "plástica" da Espanha de 2010, além de mais moderno, deixava o jogo bem mais bonito de se ver. Contudo, a essência é praticamente a mesma.
A qualidade inferior de seu meio-de-campo e sua própria incapacidade de fazer seus comandados executarem o que ele planejava (algo que Del Bosque fazia sem nenhuma dificuldade), não fez o futebol moderno então idealizado quase duas décadas antes por Parreira ficar livre dos chutões, do excesso de bolas levantadas na área e dos grandes espaços entre defesa, meio e ataque. Algo impensável e impraticável na seleção espanhola de 2010.
Del Bosque tinha a disposição técnica muito mais apurada. Seu time trocava passes incansavelmente, de pé em pé, com a aproximação dos atletas em todos os setores do campo, mesmo dos zagueiros quando o meio avançava em direção ao ataque. Os jogadores da Espanha eram, digamos, mais generosos e mais solidários no sentido de servir ao companheiro, o que tornava o jogo mais fluente. Não haviam as vaidades individuais dos jogadores brasileiros. A Espanha, rápida, envolvente e extremamente paciente (neste último quesito, como era também o Brasil de 94), cometia pouquíssimos erros em sua maneira de jogar que, basicamente, era a mesma que Parreira concebeu duas décadas antes. O Brasil não tomava gols não porque tinha uma defesa inatingível e de alto nível. Mas porque o time era treinado para manter a posse de bola e, sendo assim, impedir o adversário de atacar. E quem não ataca não faz gol. Simples assim.
As estatísticas mostram que a posse de bola do time espanhol era algo arrasador: chegou a 62%, em média por partida, durante o Mundial da África. E 90% em média de acerto nos passes. Contra a Suiça, o jogo mais evidente de tamanho domínio e precisão: 72% de posse de bola e 93% de passes acertados.
E voltam então as semelhanças entre as duas seleções. O Brasil de Mazinho e Zinho teve, em média, 60% de posse de bola por partida e 86% de acerto nos passes. Ou seja, números muito próximos aos da seleção espanhola de Xavi e Iniesta.
Enquanto os espanhóis trocaram 2.265 passes na Copa da África, os argentinos, por exemplo, cotados antes como favoritos para levantar o troféu, passaram a bola "apenas" 1.848 vezes. Na lista dos melhores passadores da Copa de 2010 aparecem quatro espanhóis nos quatro primeiros lugares: Xavi, Xabi Alonso, Busquets e Piqué, nessa ordem. Ou seja, sem chutões e sem rifar a bola em qualquer setor do campo.
A funcionalidade tática da Espanha foi também outra semelhança com a seleção brasileira campeã 16 anos antes. Ambos os times jogavam com e sem a bola, impunham forte marcação e lutavam incessantemente para retomá-la e permanecer com ela. É claro que os espanhóis, mais técnicos e desempenhando mais de uma função e de uma posição dentro de campo, deixavam o jogo mais organizado e sem deixar buracos para possíveis contra-ataques dos adversários. O que pouca gente lembra é que, apesar disso, a seleção de Parreira foi mais ofensiva que o "tiki taka" de Del Bosque: o Brasil de 94 fez 11 gols e a Espanha de 2010 só marcou 8 vezes.
Portanto, é quase inegável que a essência do jogo era a mesma: posse constante da bola.
Vicente Del Bosque encaixou sete ou oito craques mais a eficiência de David Villa ou Fernando Torres dentro de um estilo moderno, que passou a ditar as regras de um novo conceito no futebol internacional. Carlos Alberto Parreira, o tal visionário de 22 anos atrás, adaptou praticamente o mesmo esquema tático utilizando três ou quatro bons jogadores e mais dois "carregadores de piano" que, juntos, jogavam para um craque brilhar: Romário. O que, guardadas as devidas proporções de talento, se tornou referência e sinônimo de futebol moderno ao final da primeira década do século 21.
Vale lembrar também mais uma coisa em comum: se o Brasil de Parreira foi campeão na primeira Copa decidida nos pênaltis, a Espanha fez o gol do título em 2010 somente aos 26 minutos da prorrogação. 
De conceitos bastante parecidos, o Brasil de 1994 foi vencedor nos Estados Unidos, o que não significa necessariamente que foi melhor ou jogou tão bonito como a Espanha de 2010 na África do Sul. Até porque, em qualquer lugar ou situação, o tempero da comida depende dos ingredientes à disposição.




Adriano Oliveira tem este Blog desde 2009, mas a paixão pelo futebol nasceu bem antes disso. É um apaixonado que vibra pelas 11 posições, mas sempre assume uma, pois jamais fica em cima do muro. Aos 43 anos, o futebol ainda o faz sentir a mesma coisa que ele sentia aos 10.

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