sábado, 20 de agosto de 2016

FINALMENTE, O OURO OLÍMPICO DOS "VIRA-LATAS"

*por Adriano Oliveira


Um brasileiro apaixonado por futebol, como eu, poderia escrever um punhado de coisas sobre a conquista da tão sonhada medalha de ouro olímpica pela seleção brasileira. Se a seleção feminina também tivesse conquistado, como se encaminhava no início, certamente poderia escrever ainda mais. Para elas, de novo, não deu.
Poderia ser um texto interessante, com frases de efeito e, claro, em alguns momentos com uma ou outra pitada de ironia. Ou sarcasmo. No entanto, por causa da turma "do contra", não haverá nenhum devaneio inspirado pelos louros olímpicos finalmente alcançados dentro das quatro linhas. Por causa daqueles que não gostam do Brasil pelo simples fato de ser... do contra. Muitos deles, por exemplo, se alimentam até hoje do famigerado 7 x 1 que, dessa vez, para frustração de tantos, não veio.
A eles, aos tais "entendidos do futebol" que tanto saboreiam revezes de seu próprio país, aos "vira-latas" que torceram por um novo 7 x 1, segue apenas um trecho extraído do livro "À Sombra das Chuteiras Imortais", de Nelson Rodrigues, páginas 51 e 52. Para o deleite dos que não são complexados pelo vira-latismo, o pensamento e as memoráveis palavras de Nelson Rodrigues nunca estiveram tão atuais.

" (...) — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:


— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão. (...)"


O ouro olímpico era a única honraria que faltava ao Brasil. Não falta mais.
Porém, mais importante que finalmente conquistar a medalha dourada, é ter a certeza que o futebol renasceu. E fez renascer o gosto em boa parte dos brasileiros de voltar a torcer e se emocionar com sua seleção. Sim, a magia voltou, mesmo que discretamente e a contra-gosto do vira-latismo incessante dos que não têm fé em si mesmos.



Adriano Oliveira tem este Blog desde 2009, mas a paixão pelo futebol nasceu bem antes disso. É um apaixonado que vibra pelas 11 posições, mas sempre assume uma, pois jamais fica em cima do muro. Aos 43 anos, o futebol ainda o faz sentir a mesma coisa que ele sentia aos 10.

2 comentários:

Unknown disse...

Ótimo texto parabéns! Concluir futebol brasileiro esta voltando se encontra. Voltando ao melhores do mundo.

Adriano Oliveira disse...

Concordo. Engatinhando neste reinício, mas o que fica é que o brasileiro de um modo geral voltou a torcer e a se emocionar com sua seleção de futebol.
Valeu, obrigado!