segunda-feira, 13 de junho de 2016

O INTERMINÁVEL 7 x 1

*por Adriano Oliveira


Nova Iorque, fevereiro de 2016. Em noite de gala, bem próximo do Madison Square Garden, o suntuoso teatro Hammerstein foi o palco escolhido pelos anfitriões norte-americanos para realizar o sorteio dos quatro grupos de seleções que disputariam a edição centenária e comemorativa da Copa América.
No final, o anúncio do grupo B na mídia e nas redes sociais se resumia em uma manchete:

"Brasil cai em grupo fácil na Copa América Centenário".

Enquanto Chile e Argentina teriam que se enfrentar já na primeira rodada, os adversários dos comandados de Dunga seriam Equador, Haiti e Peru. Um começo nada mal para uma seleção e um treinador sob pressão para tentar apagar o "Mineirazzo", como ficou conhecida a vergonhosa eliminação diante da Alemanha nas semifinais de uma Copa do Mundo disputada em nosso quintal.
Pouco menos de quatro meses depois, o Brasil encerra sua participação no torneio, eliminado pelo Peru ainda na primeira fase. E o que mais se vê na mídia e nas redes sociais se resume basicamente em duas frases:

"Seleção brasileira apanha de novo". "Novo vexame da seleção".

Nada de vexame, nem vergonha. A seleção brasileira, sob a batuta de Dunga (que foi um jogador nota 4 e é um rascunho de treinador sem credencial alguma para assumir qualquer seleção de elite), se equivale hoje à qualquer outra seleção da América Latina, principalmente sem Neymar, o único talento individual que de fato se destoa dos demais selecionáveis. Portanto, nada mais natural que o Brasil de Dunga e da CBF perder por 1 x 0 do limitado Peru, o algoz da vez, e ser eliminado na primeira fase. Para quem não se lembra, na última Copa América, conquistada pelos chilenos em 2015, o time de Dunga perdeu para a Colômbia por 1 x 0 com Neymar em campo e, sem o temperamental craque, teve enorme dificuldade para vencer a fraca Venezuela por 2 x 1, levando sufoco no final mesmo atuando com quatro zagueiros.
O Brasil é hoje uma seleção comum. E tudo começa nos bastidores de quem comanda o futebol no país. Falta planejamento, falta estrutura, falta um projeto coerente e sustentável. O dinheiro que sobra nos cofres da CBF, sabe-se lá por quê, é o mesmo dinheiro que falta aos clubes, a cada temporada mais endividados, sejam da elite ou da quarta divisão. Até mesmo clubes mais abonados por patrocínio ou cotas de televisão, atualmente não mais conseguem manter suas contas e os salários de seus jogadores em dia. Não há o que esperar de melhor ou promissor do que se vê hoje no futebol brasileiro e, por consequência, na seleção. A atual geração de novos talentos é abaixo da média. A seleção brasileira não empolga mais o torcedor como antes, especialmente após o fracasso na última Copa, que tanto alimentou o sonho do hexa por ser disputada aqui. O Brasil, a cada novo revés, perde sua identidade com o torcedor. E há o sério risco de o país ficar fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez, daqui a dois anos.


 Ahhh, mas o Brasil goleou o Haiti!, diria o torcedor mais desavisado.
Aplicar um sonoro 7 x 1 sobre o fraquíssimo Haiti não serviu para absolutamente nada. Pelo contrário, infestou as redes sociais com a lembrança fúnebre do 7 x 1 sofrido para os alemães na última Copa. O time treinado por Dunga continua com os mesmos problemas de sempre, da escalação à formação tática. Contra o penoso Haiti, o Brasil apenas fez exatamente o que se espera de um time muito superior quando enfrenta um adversário muito inferior, ou seja, algo que acontece quase que de forma automática diante de uma equipe que basicamente perde para seus próprios erros, para seu próprio amadorismo. E os haitianos tiveram mais motivos que nós para comemorar a goleada, já que ainda anotaram um gol sobre a seleção com a camisa mais pesada do futebol mundial.
Sendo assim, não existe vexame ou vergonha. Existe uma realidade que, infelizmente, parece não incomodar mais o torcedor como antes. O futebol brasileiro está perdendo sua alma, sua legitimidade, sua vocação de estrela internacional. Seu prestígio. A Bolívia, por exemplo, possui atualmente uma safra de jovens jogadores mais promissora e, principalmente, mais comprometida que a do Brasil. O Paraguai está no mesmo patamar técnico que o Brasil nos torneios que disputa. E perder por 1 x 0 para o Peru deve ser encarado hoje como algo normal e até compreensível, uma vez que vários jogadores convocados pela turma de Del Nero, coronel Nunes e Dunga precisam de crachás para serem identificados pelo torcedor nas ruas. A cada dez brasileiros, oito não sabem escalar ou reconhecer a maioria dos convocados para a seleção principal do país pentacampeão do mundo. Pior: o cargo de treinador da seleção brasileira, que no passado era tão ou mais importante quanto o de presidente da República, hoje está reservado para alguém que sequer figura na lista dos dez melhores técnicos do país. Ou dos vinte, dos trinta melhores do mundo.
A manchete publicada quatro meses atrás nunca foi literalmente tão real. Porque sim, de fato o Brasil "caiu fácil" num grupo fácil da Copa América Centenário.
Depois do novo fiasco, ao contrário de pedir demissão ou ser desligado pela CBF, Dunga resolveu apenas criticar a arbitragem pela validação de um gol irregular da seleção peruana. E declarou ainda que não teme perder o cargo, já que está desenvolvendo uma "reformulação" na seleção após a Copa.
Por essas e outras razões, permanecem duas certezas depois de mais um fracasso: a Rússia nunca esteve tão distante e o 7 x 1 continua interminável.




Adriano Oliveira tem este Blog desde 2009, mas a paixão pelo futebol nasceu bem antes disso. É um apaixonado que vibra pelas 11 posições, mas sempre assume uma, pois jamais fica em cima do muro. Aos 43 anos, o futebol ainda o faz sentir a mesma coisa que ele sentia aos 10.

3 comentários:

Nayana A. Peres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nayana A. Peres disse...

Texto maravilhoso! Parabéns, my Soul! Transmitiu muito bem o sentimentos de nós, torcedores e sofredores do 7x1.
Futebol é um esporte tão bonito e mágico, que me surpreender ver que nossa Seleção não consegue se reerguer. É um esporte de altos e baixos, sabemos, mas e quando os baixos se tornam rotina? Falta um conjunto enorme de detalhes para a Seleção voltar a competir de igual para igual. Hoje é só aqueeeela que levou o penta um dia. Me preocupa (e entristece, ao mesmo tempo) ver as Olimpíadas aí, na nossa porta, e não ter esperança de cantar vitória, muito menos ver a beleza do futebol em campo.Vamos jogar, mas não vamos competir.
Tem nossa torcida, apesar de.
Que a esperança suspire por último, também, para os canarinhos.

Muitos beijos!

Adriano Oliveira disse...

Muito bem!

"...o sentimentos de nós, torcedores e sofredores do 7x1..."

Bela definição para o atual momento da seleção brasileira, sem identidade e perdendo a sintonia com o torcedor, que sempre foi orgulhoso de seu futebol.
As Olimpíadas estão aí e, infelizmente, há pouca luz no fim do túnel. Não acredito em triunfo. A desorganização impera nos bastidores de quem comanda ou deveria comandar.
Obrigado e beijos!