domingo, 18 de setembro de 2016

O FUTEBOL NÃO ACEITA DESAFORO

*por Adriano Oliveira

" Costumamos avaliar o trabalho do técnico ao fim da temporada. Fazíamos o mesmo com Tite. Não será diferente (...) Ele (Cristóvão Borges) faz bom trabalho. É trabalhador, treina muito bem a equipe e os resultados vão surgir logo (...) O que acontece é que esse time está demorando mais para ganhar formato em comparação a outros que montamos. Isso não significa que não há bom trabalho. Há sim, e muito."
(Roberto de Andrade, presidente do Corinthians, em entrevista ao site "O Estado de São Paulo" um dia antes de demitir o técnico Cristóvão Borges após protesto da torcida na derrota para o Palmeiras por 2 x 0, no Itaquerão).


Pesquise opiniões e comentários sobre o clássico entre Corinthians x Palmeiras, válido pela 26ª rodada do Campeonato Brasileiro. Vasculhe redes sociais, leia reportagens e artigos, ouça comentaristas espalhados pelo rádio e televisão. O ponto de vista é quase unânime: o Palmeiras, líder do campeonato, venceu de forma fácil. Muito fácil.
Talvez nem o mais otimista dos palmeirenses imaginou que seria tão tranquilo vencer por 2 x 0 o arqui-rival dentro do Itaquerão lotado somente por corintianos.
Nem Cristóvão Borges imaginou.
E foi pouco. Poderia ser pior, caso Gabriel Jesus, por exemplo, estivesse em campo. Sim, o atual centroavante da seleção brasileira provavelmente faria pelo menos dois dos três gols perdidos por Erik, Leandro Pereira e Edu Dracena.
Mas por que foi tão fácil? Simples, porque o futebol não aceita desaforo.
Sem a competência de Tite, o Corinthians se tornou um time extremamente previsível em cada partida. Uma defesa vulnerável e um meio de campo incapaz de produzir jogadas ofensivas. Na frente, apenas a correria do paraguaio Romero.
Surpreendentemente, no lugar de Tite veio Cristóvão Borges e, com ele, pelo menos a expectativa de uma mudança de ambiente sempre acompanhada com a chegada de um novo comandante. Haveria, no mínimo, mais motivação e empolgação para, no decorrer do tempo, se chegar a melhores resultados, nos jogos e nos treinamentos. Contudo, veio também uma enorme interrogação, desde que o sucessor de Tite foi anunciado há três meses numa manhã de domingo, após o ex-técnico aceitar o convite da CBF. A esmagadora maioria dos corintianos, desde o início, sempre olhou ressabiada e desconfiada para aquela figura pacata, serena e pensativa na beira do gramado. Um treinador que pode até conhecer futebol, mas que não consegue fazer um time limitado como o atual Corinthians jogar com eficiência e atitude, como fazia tão bem seu antecessor. Marlone, por exemplo, hoje o destaque do time, só passou a ser escalado por Borges como titular depois que foi insistentemente exigido pela torcida.
Longe de ser anormal uma derrota por 2 x 0 para o líder do campeonato sobre o então 5º colocado. Porém, é inaceitável para o torcedor a forma como isso acontece. Dentro de casa, sem oferecer risco ao rival desfalcado de seu principal jogador e com uma escalação duvidosa baseada num esquema tático que se mostra, faz tempo, improdutivo.
A sombra de Tite sempre vai pairar sobre qualquer profissional que esteja ali, na beira do campo. Mas daí passar o bastão para Cristóvão Borges é de uma incoerência absurda. Tão absurda que, durante o clássico diante do Palmeiras, boa parte dos corintianos presentes ao estádio poupou Cristóvão de xingamentos e direcionou o alvo para o presidente do clube, Roberto de Andrade, o maior responsável pela troca no comando da equipe e que, um dia antes, havia garantido a permanência do treinador mesmo com as seguidas derrotas e más atuações. Ou seja, a torcida do Corinthians não foi injusta com Cristóvão. O torcedor cobrou o responsável direto por sua contratação e que não teve coragem de assumir mais um de seus erros, somado a muitos outros desde o começo da temporada.
Cristóvão Borges sim foi corajoso, ao aceitar há três meses o desafio de substituir o melhor treinador do Brasil numa verdadeira "panela de pressão" chamada Corinthians. No entanto, talvez nem ele próprio, naquela manhã de domingo de três meses atrás, chegou a acreditar de fato que isso pudesse dar certo.
Com sua saída, Cristóvão apenas acelerou mais a canonização de Tite no Parque São Jorge. Afinal, o futebol não aceita desaforo. E, dentro de campo, a bola pune. Sempre.




Adriano Oliveira tem este Blog desde 2009, mas a paixão pelo futebol nasceu bem antes disso. É um apaixonado que vibra pelas 11 posições, mas sempre assume uma, pois jamais fica em cima do muro. Aos 43 anos, o futebol ainda o faz sentir a mesma coisa que ele sentia aos 10.

5 comentários:

ANDERSON Fernandes disse...

Acho que vai ser difícil substituir o Tite, mas Cristóvão é um cara muito pacato para um time de tanta pressão, mas agora o interino acredito que fique até o fim mesmo do campeonato, pq vai ser difícil encontrar um técnico aue assume o rojão nesta reta final. Se Roger vier provavelmente vai querer iniciar só ano que vem, que é bem sensato!

Adriano Oliveira disse...

Concordo em parte. O treinador que vier agora tem a chance de reverter a atual fase e, quem sabe, até encaminhar uma vaga para a Libertadores de 2017. Afinal, ainda há bastante campeonato pela frente. Por outro lado, teria tempo e a possibilidade de avaliar o elenco e começar o planejamento para a próxima temporada.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

De fato ausência do Tite fez toda uma diferença como um todo. Por outro lado a seleção brasileira estava precisando ter um térmico com espírito de grupo de um jogo mais "muleque" obviamente com técnica pra ao menos o Brasil sair bem nas eliminatórias para a copa do mundo de 2018. Parabéns pelo blog. Até próxima.

Adriano Oliveira disse...

"Futebol moleque" não é a principal característica dos times treinados por Tite, mas com toda certeza a seleção brasileira jogará focada num objetivo principal que é a classificação para o Mundial de 2018 e com total espírito coletivo. A marca registrada de Tite é o futebol baseado na eficiência, que lhe rendeu bons e convincentes resultados nos últimos anos. Será difícil para o Corinthians conseguir um treinador tão identificado com clube e torcida como ele.

Um abraço e muito obrigado!