sábado, 8 de outubro de 2016

A CASA DO FUTEBOL, 100 ANOS

*por Adriano Oliveira


Vai passar, por cem anos nessa Vila, o esporte mais popular.
Cada paralelepípedo de sua velha cidade à beira-mar a cada gol vai se arrepiar. Também ao lembrar que por aqui se passaram tantos jogadores geniais, tantas jogadas surreais e alegrias magistrais. Aqui suaram e sangraram ícones e ídolos. E desfilaram os imortais, num tempo de páginas felizes da história do futebol, de passagens ainda vivas na memória que se tornaram inspiração para todas as gerações.
Os filhos que daqui brotam se irradiam pelos continentes, disseminando o gosto de jogar bola e levando multidões a palcos de tantos lugares diferentes.
Meninos que um dia realizaram o sonho de pular o alambrado e fazer, no acanhado campo da Mãe-Rainha do futebol, o mesmo que faziam na praia e nos campinhos, ofegantes, irresponsáveis, irreverentes. Donos de uma ousadia e de uma alegria que pouco se vê por aí, marca registrada por aqui.
Venha pra Vila e a sinta vibrar e pulsar, energizada pela força do sentimento que vem da arquibancada. Venha pra Vila pela história de seus cem anos. Pela mística de sua aura. Pela sua majestade.
Afinal, quem não gosta da Vila, bom boleiro não é.. Ou é ruim da cabeça... ou doente do pé...
E a você, que inventou de inventar o futebol, estará perdoado, porque, apesar de você, hoje é dia de jogo na Vila.
E eu pergunto a você onde vai se esconder diante de tamanha pressão, suando frio, angustiado, com o choro contido diante da derrota no alçapão?
Onde vai se esconder quando o moleque atrevido insistir em driblar?
Tenha calma. No final de 90 minutos, esse seu sofrimento vai acabar.
Saiba você, que conhece a tristeza, que por aqui o jardim sempre vai florescer. E você sabe que sempre vai ver.
Porque outras vezes vai ter que a serra descer, para ver depois de outros 90 minutos, sua tristeza de novo renascer.
Sem lhe pedir licença, você vai se amargar ao ver outro moleque vestido de branco driblar. E depois de fazer o gol, ele vai sorrir e lhe provocar.
E eu vou morrer de rir, sabendo que muitos e muitos jogos como esse hão de vir,
pelos próximos cem anos. Antes até do que você pensa.
Como você vai explicar, daqui a um, dez ou cem anos, que seu time impunemente e novamente perdeu?


Mas venha pra Vila novamente, pode entrar.
Aqui é água viva e nova brotando sem parar, eu sorrindo feliz vendo a poesia jogar e a tarde escurecer com seu choro contido.
Como você vai abafar, na sua frente, nossos súditos a pulsar e a cantar?
Você fica calado, doendo no ouvido o grito de olé e vendo o jogo bem jogado, no templo sagrado, de onde para o mundo surgiu Pelé.
Amanhã toda a sua gente vai estar quieta, olhando de lado, angústia sufocada, lembrando da Vila, como ela é.
Nosso lugar é acanhado, mas o chão é sagrado, pára-raio infinito de céu estrelado. Berço, templo e escola.
Há cem anos, aqui nasce e renasce o jogo de bola.



Adriano Oliveira tem este Blog desde 2009, mas a paixão pelo futebol nasceu bem antes disso. É um apaixonado que vibra pelas 11 posições, mas sempre assume uma, pois jamais fica em cima do muro. Aos 43 anos, o futebol ainda o faz sentir a mesma coisa que ele sentia aos 10.

2 comentários:

Unknown disse...

Seja casa que for o brilhantismo da arte do futebol brasileiro vai entoar pelo mundo.. Sem sombra de duvida essa casa e um seleiro de craque que tem muita história pra conta. Parabéns um belo texto.

Adriano Oliveira disse...

Não tenha dúvida. O futebol está no DNA do brasileiro. É uma questão de cultura, está enraizado e muito mais que simplesmente um esporte. No entanto, alguns palcos são emblemáticos e a Vila Belmiro certamente possui sua magia e sua brilhante participação na história.
Um abraço e obrigado!