quinta-feira, 4 de setembro de 2014

EXCLUIR O GRÊMIO ACABA COM O RACISMO?


O estádio de futebol é talvez o único lugar capaz de reunir ao mesmo tempo, pelo mesmo motivo e com a mesma intensidade, milhares de pessoas de todas as idades, estilos, crenças e classes sociais.
Faça frio ou faça sol, durante o dia ou de noite, o estádio se torna a catarse coletiva que transcende a razão. O gari e o médico que se abraçam celebrando o grito de gol. O vendedor e o advogado que berram juntos xingando o árbitro pela marcação de um impedimento duvidoso.
É ali, no meio de tanta gente movida pelo mesmo ideal, que o torcedor ri, chora, se lamenta, vibra, se desespera, desabafa a insatisfação com seu emprego, digere a bronca do chefe no fim do expediente, se liberta da relação mal resolvida que vive dentro de casa.
É no estádio que o torcedor pode extravasar sua emoção. No entanto, o mesmo torcedor
não pode se sentir no direito de acreditar que, ali no estádio de futebol, tudo é permitido e tudo deve ser tolerado. Não pode haver a falsa sensação de que ali pode tudo. Sim, existe um limite, um ponto até onde se pode chegar.
A exclusão do Grêmio da Copa do Brasil por insultos racistas ao goleiro santista Aranha, dentro de seu estádio, é inaceitável, assim como é inadmissível a injúria racial.
Mas que seja punido o autor do disparo e não o fabricante da arma.
O clube não pode ser penalizado dessa forma por causa de meia-dúzia de inconsequentes que, em pleno século 21, ainda discriminam um ser humano pela cor de sua pele. O clube não pode ser responsável por atos criminosos de pessoas que vestem sua camisa. Não há como controlar a reação do torcedor, uma vez que ali existe todo tipo de gente.
Não é obrigatório exame de sanidade mental ou psicológico na hora de comprar ingresso na bilheteria. Nenhum torcedor responde a um teste eliminatório de bons modos antes de passar pela catraca. O clube não tem como prever o que uma pessoa vai fazer dentro ou fora de seu estádio. É preciso identificar e punir quem cometeu os insultos racistas ao goleiro do Santos, que estava ali simplesmente fazendo o seu trabalho.
Por outro lado, expulsar o time gaúcho da Copa do Brasil não vai acabar com o racismo ou atitudes covardes de quem está na arquibancada.
Neste episódio, a imbecilidade das ofensas de alguns torcedores ao Aranha sequer os beneficiaram de alguma forma, uma vez que o Grêmio perdeu a partida de ida das oitavas-de-final para o Santos por 2 x 0, em seus próprios domínios. A exclusão da equipe do técnico Luiz Felipe Scolari nem soa tanto como "punição", já que dificilmente conseguiria reverter a vantagem de dois gols do Santos jogando dentro da Vila Belmiro. Ou seja, a eliminação dos gaúchos era quase iminente, somente foi antecipada pelo STJD.
Mas para o gremista sempre haveria uma chance, por menor que fosse. E a expulsão do time por atos racistas, que fogem totalmente ao controle da instituição, puniu o Grêmio e seu torcedor do bem, aquele que faz parte da esmagadora maioria.
O futebol não pode pagar pela estupidez do ser (des)humano.

2 comentários:

Dirceu Kuhn disse...

Iniciou-se uma nova fase no Brasil, e esta será exemplo para o mundo todo. Pois, com a decisão do STJD, inédita no Planeta, demarca-se o Antes e o Depois da mesma. No Antes, podia cair o alambrado e ferir centenas de torcedores, podia atirar sinalizadores do exército no adversário, podia bater com barra de ferro, podia jogar tijolos, vaso sanitário na cabeça, xingar de "macaco ou FDP" - até podia alusionar os mesmos a Ministros do Supremo - , e inclusive podia marcar encontros e brigas pela Internet, organizadamente. Mas isto era o antes. no momento atual, o STJD do Brasil, um país extremamente mais avançado que os outros, resolveu dar um "Basta!" à violência moral e física nos estádios, cortando o mal abruptamente pela raiz. Assim puniu severamente ao Grêmio e a seus torcedores com uma exclusão direta da Copa do Brasil, baseado no fato de que alguns indivíduos identificados praticaram as mesmas injúrias que outrora não eram levadas tão a sério. Deste modo, na época da nova moralização, já estamos vivendo as semanas do Depois, da linha dura e Justiça Desportiva infalhável. E como já estamos vendo, a partir do presente só será tolerado: torcedores do Flamengo que gritarem "racistas" para gremistas ou outros, membros do STJD postando conteúdos supostamente de cunho racista, e o que a grande imprensa quiser omitir, não importando o que seja. Por conclusão, e considerando a boa educação e o profissionalismo que tanto impera neste nosso país exemplar, logo logo ninguém mais será punido com gravidade e em poucos meses só será permitido e considerado normal o que ocorrer conforme a dureza das regras do Antes desta decisão do STJD. Duvida? O tempo te mostrará...

Adriano Oliveira disse...

Concordo. E acredito que os indivíduos identificados nas arquibancadas devem ser julgados e punidos de acordo com a legislação vigente. Punir o clube, como aconteceu com o Grêmio, abre um perigoso espaço para o "falso torcedor", ou seja, o sujeito mal intencionado que pode se infiltrar na torcida adversária com o intuito de prejudicar um dos times. E tal medida de exclusão não acaba com o racismo, infelizmente.