sábado, 23 de novembro de 2013

JUNINHO, TORCEDOR DE UM TIME SÓ, SILENCIOU O MORUMBI.


Diferentemente de boa parte das coisas da vida, futebol é uma opção. É você quem escolhe o time que deseja torcer. Por exemplo, se antes de nascer, algum anjo viesse até você e lhe perguntasse:
“ – Você quer ser pobre ou rico?”
Imagine como seria bom se todos tivessem essa opção. A esmagadora maioria, claro, responderia:
“ – Rico!!”
Porém, as coisas da vida não são assim.
Com exceção do futebol. Porque você escolhe seu time.
E por quê cargas d’água você vai escolher um time pequeno, do interior, que pouca gente conhece a história, que será eternamente a “zebra”, já que você pretende amá-lo para o resto de sua vida, faça chuva ou faça sol, na alegria ou na tristeza? Vai querer sofrer para quê?
Não. Óbvio que não.
Juninho pensava assim. Aos 9 anos, quase sempre acompanhava o pai ao estádio nas tardes de domingo. Gostava de jogar bola e, como a maioria dos garotos de sua idade, guardava o sonho de um dia se tornar jogador de futebol, apesar de ser repreendido pela mãe, que desejava ver o filho se formando médico ou advogado. Afinal, naquela época, o futebol era algo romântico, não era ainda uma fábrica de dinheiro como nos dias de hoje.
Juninho se esforçava para torcer pelo mesmo time do pai, até se comovia com a paixão que o pai demonstrava. Mas havia uma dúvida cruel. O time do pai não ganhava títulos, poucas vezes seus jogadores davam entrevistas para a televisão, não aparecia no “Fantástico”, sequer no videoteipe de domingo a noite. As vezes eles iam passar o domingo na cidade vizinha, visitando os parentes. Como todos gostavam de futebol, certa vez acompanhou o tio no jogo do time dessa outra cidade. E ficou espantado. O jogo era contra um time grande da capital, do qual todos falavam e que aparecia bastante na televisão. Viu algo que o intrigou: havia mais torcedores desse time da capital do que do time da cidade que seu tio morava. Até no espaço onde ficava a torcida local, haviam muitos torcedores com a camisa desse time grande. E até de outros times grandes que jogavam a quilômetros e quilômetros dali. Entendeu menos ainda quando seu tio vibrou bastante no momento em que o sistema de som daquele acanhado estádio (o "Majestoso" de sua cidade era bem mais bonito) anunciou um gol de um outro time grande da capital. Seu tio torcia para qual time? Não era aquele que estava em campo, que representava sua cidade? E comprovou que seu tio era bem diferente de seu pai.
Jamais seu pai colocaria a camisa de um time que não fosse aquela alvinegra, com a faixa branca na diagonal. Certa vez percebeu que um time carioca, o Vasco da Gama, também usava um uniforme igualzinho, porém o pai sempre lhe disse que “o nosso time é o mais antigo do Brasil, foram eles que nos imitaram”. E jamais colocou a camisa de outro time que não fosse aquele alvinegro que nasceu na mesma cidade que ele.
Juninho foi crescendo e percebeu que em sua cidade os times grandes não eram "tão grandes" assim. Percebeu que ali só haviam dois times para torcer, ao contrário de todas as cidades vizinhas que ele conhecia. O outro era um time de verde, que seu pai nem gostava de falar o nome. Um nome de tribo indígena. Diversas vezes presenciou discussões acaloradas entre o pai e o vizinho da esquina, que se provocavam mutuamente. Aquele time de verde era o único rival de verdade do time de seu pai. Os times considerados grandes, dos craques da televisão, simplesmente faziam parte do resto. E o resto é o resto.
Juninho cresceu. E desde a infância decidiu torcer para o time do pai, o time de sua cidade, que nem ficava tão longe da capital. E desde sempre torcia somente para esse time, mantendo os princípios de um torcedor genuíno, autêntico, inclusive também alimentando uma antipatia e uma rivalidade enorme por aquele time de verde que dividia a população da cidade.
O pai, mesmo adoecido, passou seus últimos domingos de vida com o radinho de pilha grudado no ouvido, acompanhando os jogos desse time carinhosamente apelidado de “macaca” ou “nêga véia”. Acabou falecendo sem ver um título.
Neste ano, mesmo sendo rebaixada para a 2ª divisão do Brasileiro, a "nêga véia" certamente enche de orgulho seu pai, agora torcedor em outra dimensão. E faz reviver os áureos tempos de Carlos, Oscar, Dicá, Polozzi e companhia. Jogadores que ele via vestindo o "manto" ao lado do pai quando ainda era criança.
Agora o time está ali, na sua frente e na televisão, disputando pela primeira vez um torneio sulamericano, a um passo de chegar às finais. Para isso, desbancou o temido Velez Sarsfield, da Argentina, vencendo os hermanos por 2 x 0 em terras portenhas. E agora, nas semifinais, acaba de vencer o São Paulo por 3 x 1 em pleno estádio lotado do Morumbi. Seu tio, aquele mesmo que o levou ao estádio acanhado quando menino, deve estar muito bravo. Onde já se viu seu poderoso São Paulo perder um jogo decisivo para um time do interior por 3 x 1 dentro do Morumbi? Seu pai adoraria ver a cara dele, debochando, claro. O tio sempre foi alvo de gozação por ser um “torcedor misto”, que acompanhava o time da cidade em que morava, mas torcia mesmo de verdade para o time grande da capital. Em Campinas não há torcida mista. Ou se é alvinegro ou se é verde.
E Juninho entendeu de vez que fez a escolha certa quando, dentro do Morumbi naquela noite, encharcado de tanta chuva, pôde ver a torcida do time genuinamente de sua cidade, em muito menor número, silenciar aquele estádio enorme lotado de são-paulinos. O coro de vozes se misturava aos seus gritos e ao seu choro de alegria. E com o coração fez uma discagem direta interestelar ao pai, que por um instante sentiu bem do seu lado, o abraçando, também chorando de alegria por aquele momento que já é inesquecível.
E agradeceu ao pai por lhe mostrar, um dia, que o futebol era uma opção.

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