sábado, 25 de maio de 2013

UM MENINO POBRE. UM MENINO RICO. UM MENINO DA VILA.

Eu conto um conto...: Um menino pobre. Um menino rico.: Ele era um menino pobre. Em sua infância paupérrima e desesperada nunca soube, na prática, o que era um videogame. Apenas sabia o que de longe se anunciava nas entradas das lojas e nas propagandas da TV, mas desde cedo entendeu que o valor da mercadoria era quase o montante dos salários dos pais, já tão ínfimos. Mal tinha comida em casa todos os dias. Não os culpava. Via o esforço diário, via o suor na testa, via a falta de ambos durante o dia. "A vida não é fácil", dizia a mãe, repetindo a ladainha diária.

Não, não era.

Tinha que estudar e ser alguém na vida. Quem sabe chegar a ser doutor que nem o filho da vizinha, que agora só aparecia no subúrbio pra mostrar a nova moto (e na verdade não era mais que um técnico em qualquer coisa, que se gabava do que podia e não podia ter). Estudar era salvação e deleite: estudava as imagens dos livros de escola pública, usados por mais de mil alunos antes dele, e sabia de coisas de outros mundos. Se não sabia, imaginava. Se não imaginava, sonhava. E assim vivia.

Era um menino tão pobre, mas tão pobre, que nunca andara de carro. Nunca. Só os via passar. No entanto, conhecia todas as marchas e manhas do ônibus. Sabia qual pegar para qualquer canto da cidade. Era um menino esperto. Outro dia espantou a vizinha fazendo o cálculo de um troco e lendo um pedaço do jornal. Falava sobre política, algo assim que ninguém entende. Mas fingiu entender bem. Estufou o peito. E o povo da comunidade foi ao delírio.

Era tão pobre que já teve todo o tipo de vermes existentes na face da terra. Culpa da terra em frente à casa. A mãe sempre reclamava dizendo que só tinha "porcaria" no chão. Mas era lá que brincava de ser melhor. Era lá que galopava desejos indomáveis como corcéis de fogo e era lá que podia se imaginar num lugar diferente, que não tivesse aquele mau cheiro insuportável de sonho destruído.

Não entendia muito de ciências ou de geografia, mas sabia caçar gafanhoto como ninguém! Também aprendeu a entender a lua cheia e saber quando ia chover. Sua avó ensinou. Um dia ela morreu mas ele nem soube: a vida já era por demais triste naquele lugar e seus pais não achavam certo que o mundo lhe tirasse uma das únicas coisas boas que tinha. Não contaram e ele acreditou que a avó estivesse doente das pernas.

Era um menino tão pobre que não tinha livros. Só os da escola, que recebia por causa de um programa de governo e que, via de regra, ninguém fazia muita questão. Sua maior diversão ao receber o livro da série correspondente era justamente ler os textos que estavam na parte de português, ainda que não tivesse uma leitura correta de todos os pontos e vírgulas.

Um dia perguntou à mãe o que significava uma palavra no livro. Mas ela não sabia. De fato nunca ouvira falar em "Dádiva" nenhuma. Talvez, se frequentasse a igreja. E o menino colocou esse nome na cachorra, que antes quase se chamara "xulinha".

A maior ambição desse menino pobre era ter um armário. Sim, um armário desses que todo dia estão em queima de estoque nas lojas de eletrodomésticos. Possuía, na verdade, um projeto de guarda-roupa que desabou e ficou inclinado. Não tinha portas e as coisas se amontoavam na diagonal, o que criava cada vez mas bagunça. Um dia compraria um armário para si e para os pais.

O sonho deste menino era morar numa novela. A velha televisão mostrava lugares maravilhosos e casas luxuosas, com pessoas sorrindo pra lá e pra cá. Em nada se pareciam com o barraco onde morava. E tinha tantos armários! Uma vez a mãe disse que pra conseguir tudo isso ele tinha que sair dali, tinha que deixá-la e deixar também o pai, e ouviu desse menino pobre:
- Então não vou. De que adianta ter tanto armário se não tiver vocês pra colocar roupa dentro?
Não entendeu porque a mãe chorou e, tão logo ficou envergonhado, saiu pra se sujar de terra.

Era um menino muito rico.
Uma dádiva.

(Escrito por Mariana Laborda)

2 comentários:

Nayana A. Peres disse...

O texto é ótimo e caiu "como uma luva" nesse menino da Vila.
O bom filho sempre retorna. E ele deixa claro isso.
Eu me arrepiei ontem qdo disse: "A torcida do SANTOS foi a única que torceu realmente por mim."
A torcida que é mais. É família. :)

Parabéns pelo blog!!

Adriano Oliveira disse...

Sim, os santistas sempre apoiam seus meninos. É como se fossem parte da família. O mesmo DNA. Obrigado!