terça-feira, 2 de abril de 2013

O BOM FUTEBOL ESTÁ ABANDONANDO O BOM ROGÉRIO CENI.

Pelé nunca foi brilhante com as palavras da mesma forma que foi brilhante com a bola nos pés. Nem se compara. Porém, uma de suas frases mais célebres deve ser sempre relembrada. Quando o craque Romário estava desesperadamente buscando o milésimo gol, prestes a encerrar a carreira, o Rei do Futebol foi questionado a respeito e disse: "O jogador deve abandonar o futebol antes que o futebol o abandone". Entendo da mesma maneira.
E por quê tal frase deve ser sempre relembrada? Veja aí o caso do paranaense Rogério Ceni, 40 anos, goleiro do São Paulo desde 1990. Ídolo, maior jogador da história do São Paulo, provavelmente superando até mesmo o uruguaio Pedro Rocha, que tanto encantou os são-paulinos na década de 70. Além de seus históricos 109 gols marcados na carreira e de conquistar todos os títulos possíveis (menos o da Copa do Brasil), o ídolo e goleiro-artilheiro Rogério Ceni foi eleito o melhor jogador dos Campeonatos Brasileiros de 2006 e 2007 e indicado ao prêmio da Bola de Ouro em 2008 pela revista francesa France Football. É fato que não possui o mesmo carisma do ex-goleiro Marcos, que é querido até por quem não é palmeirense, mas Rogério é idolatrado pela grande maioria dos são-paulinos. Mesmo assim, já está passando da hora de deixar o futebol, porque como diz a frase, o futebol já está o deixando. Chegou o momento de fazer o que o palmeirense Marcos fez: pendurar as chuteiras (ou as luvas, como queiram) e perpetuar sua imagem na galeria dos grandes jogadores, sem arranhões.
Marcos encerrou a carreira no começo de 2012. Quando viu que já não estava mais atuando em alto nível, sem o mesmo reflexo (indispensável para o bom goleiro) e que suas apresentações ficavam aquém do esperado, simplesmente parou para não decepcionar seus fãs. Sem alarde, sem hesitar. O desempenho quase sempre irregular nas últimas partidas poderia manchar a boa imagem perante todos os torcedores, especialmente por ter sido o goleiro titular da seleção brasileira pentacampeã mundial na Copa da Ásia de 2002.
Rogério não é mais o goleiro rápido e habilidoso de antes, que participava dos jogos fazendo belas defesas e gols de bola parada, que sempre se mostrava bastante seguro com a bola nos pés. Não é mais aquele goleiro que sabia como poucos sair jogando, que não errava reposição e esbanjava confiança nos recuos de bola de sua zaga.
O goleiro-artilheiro vem falhando e não é de hoje. Teve lances bisonhos neste Campeonato Paulista, como na partida contra o modesto Ituano, um frango inconsolável em pleno estádio do Morumbi. Sofreu 20 gols em 17 partidas em que atuou na atual temporada, o que significa 1.17 gols sofridos por jogo, sua pior média nos últimos 5 anos.
Porém, são nos jogos mais importantes que as falhas se tornam mais visíveis. No melhor clássico paulista até o momento, o São Paulo foi derrotado de virada pelo Corinthians pelo placar de 2 x 1 e o goleiro são-paulino foi destaque da partida. De forma negativa.
Rogério errou "feio" pelo menos três vezes: ao repor uma bola ainda no primeiro tempo, entregando de graça para um jogador corintiano próximo da área; ao se atrapalhar numa defesa com os pés e "furar" na pequena área ao disputar bola com o corintiano Paulinho; e principalmente no lance capital do jogo, ao perder o tempo de bola e sair mal num recuo de seu zagueiro, fazendo pênalti durante disputa com o atacante corintiano Alexandro Pato.
É bem verdade que o zagueiro Rafael Tolói deixou Rogério em maus lençóis ao recuar erradamente uma bola fácil, dominada. O habilidoso e veloz Pato, percebendo o erro do adversário, saiu em disparada e muito mais rápido chegou na bola antes, tirando-a do alcance do goleiro com o bico da chuteira. Rogério, mais lento e sem tempo de bola como no passado, chutou violentamente o pé do atacante, derrubando-o e cometendo pênalti. Ele próprio se machucou no lance. Apesar dos protestos de jogadores e torcedores são-paulinos, foi pênalti claro e o goleiro deveria ter sido expulso, porque se não fosse derrubado, Pato entraria com bola e tudo para dentro do gol. Rogério Ceni chegou a "implorar" a não marcação do pênalti, ajoelhando-se  pateticamente diante do árbitro. E mesmo se adiantando uns 2 metros como de costume na cobrança do pênalti, não conseguiu evitar o gol do mesmo Pato que deu a vitória ao Corinthians. E, mais uma vez, saiu reclamando da arbitragem no fim do jogo.
Rogério Ceni precisa compreender que reconhecer a hora de parar também é louvável, assim como comemorar títulos, gols e vitórias. Isso faz parte dos grandes feitos dos grandes jogadores.
Portanto, encerre sua vitoriosa carreira ainda com bom futebol antes que o bom futebol o abandone...de vez.

2 comentários:

Nayana A. Peres disse...

Me fez lembrar do ídolo de muitos, Schumacher, que também deveria ter parado quando estava no auge, em 2009, acho.

Ótimo texto, boa visão de um futuro não promissor para o Rogério. É fato. Hora de pendurar as chuteiras, literalmente.

Adriano Oliveira disse...

Sim, também não concordei com o retorno do alemão às pistas. Porém, no fim da temporada de 2012 da Fórmula 1, o mito Michael Schumacher me surpreendeu com uma declaração. Ao ser perguntado por um repórter sobre o que ele teria "aprendido" com sua volta apagada, ele respondeu: "Aprendi a perder". Acredito que Rogério Ceni não terá a mesma humildade para admitir isso no fim de sua carreira se insistir em continuar por mais tempo.