sábado, 5 de julho de 2014

A COPA ERA O SONHO DO MENINO


Todo mundo se lembra da infância através de uma música, de um filme, um programa de TV, um desenho.
Aquela música ou aquele filme que marcou uma época inesquecível da vida, de descobertas, de expectativas, em que os sonhos ainda existiam.
E no campinho não é diferente. Todo menino que passa o dia todo correndo atrás de uma bola tem o sonho de um dia se tornar jogador de futebol. O sonho de jogar no time do coração ou num grande time da Europa. E por que não, quem sabe, jogar uma Copa do Mundo pela seleção? A glória. O apogeu. O Olimpo.
Neymar também tinha esse sonho.
Foram nove anos no Santos. Das categorias de base ao time profissional.
Ganhou títulos. Prestígio. Dinheiro. Fama. De Santos para o mundo. E depois para a seleção brasileira. Vestir a camisa 10 do Brasil na Copa do Mundo disputada em seu país era a realização plena do sonho daquele menino, dono de um futebol irreverente, malicioso, que chega a ser atrevido, ousado, alegre. Genuinamente brasileiro.
O menino-craque, que na infância fazia arte nos campinhos e nas praias de Santos, pulou o alambrado e estava agora do lado de dentro, no gramado do Maracanã, do Mineirão ou do Castelão, aos olhos do mundo inteiro, arrancando sorrisos, provocando alegria e também uma espécie de ira misturada com inveja de alguns torcedores com complexo de vira-lata. Afinal, futebol tambéé isso.
Seus gols e suas jogadas desconcertantes carregavam os sonhos de milhões de outros meninos, que correm felizes atrás da bola, na esperança de que um dia também possam estar vestindo aquela camisa 10 amarela. Ou a 7, a 8, a 9...
Com seu futebol moleque, havia a esperança de que o caminho do hexa seria mais fácil e, dentro de casa, mais bonito. Quase uma certeza. Quase.
Por que existem os craques, os gênios. E existem os brucutus. Pseudo-jogadores que se propõem a entrar em campo e que pouco se importam com a presença ou não da bola.
Por volta de uma hora e trinta minutos após o fim da partida dramática entre Brasil 2 x 1 Colômbia, válida pelas quartas-de-final, o médico Rodrigo Lasmar concedeu entrevista para anunciar que Neymar, 22 anos, sofreu lesão na terceira vértebra da região lombar e que estava fora da Copa do Mundo. Vítima de uma entrada maldosa do zagueiro colombiano Zuñiga, aos 40 minutos do 2º tempo. Uma joelhada desleal por trás, nas costas.
O que se passou pela cabeça de Neymar quando foi retirado de ambulância para o hospital? Chorando como a criança de outrora que um dia sonhou em vestir a camisa da seleção numa Copa do Mundo?
Neymar faria a diferença. Ele sabia disso mais do que ninguém. Para o bem e para o mal. Seria o herói da conquista ou o símbolo do fracasso. Mas e daí? O que isso importa agora? Como essa pergunta será respondida? Uma falta proposital impediu o menino de dar essa resposta aos brasileiros e ao planeta. Uma entrada covarde que sequer deu ao craque a chance de, mais uma vez, se jogar para fugir de uma lesão grave.
Um ato impensado que tirou um pouco mais do brilho da Copa, onde teoricamente estão somente os
melhores. Mas é possível tentar compreender. A Colômbia tem um James Rodríguez e mais dez. Um desses dez tinha que ser um tal de Juan Zuñiga. Normal para o padrão de qualidade colombiano. Uma seleção que, sabe-se lá porquê, chegou a imaginar que poderia eliminar o país pentacampeão do mundo dentro de sua casa.
Perto de Juan Zuñiga, o que fez o uruguaio Luisito Suárez? Uma "mordida" perto de uma falta criminosa?
O zagueiro colombiano sequer recebeu cartão amarelo. Já Neymar foi obrigado a se despedir de uma Copa que era dele. Na casa dele.
Uma Copa que agora fica sem a ousadia e a alegria de um menino-craque que sempre sonhou com ela.
Azar da Copa.

2 comentários:

Maria Silva disse...

Todos anti jogo e ato violento sendo apontado como falta ou não pelo juiz deve ser punido. Esse tipo de atitude só apaga o brilho de algo tão lindo vindo dos pés de craques como nosso Neymar. Sou são-paulina e não tenho o menor problema em dizer que o Neymar é nosso, tenho muito orgulho e admiração por esse rapaz que encanta com suas jogadas maravilhosas. Mas os companheiros escolhidos para jogar ao seu lado haverão de honrar o camisa 10 e ganharão essa Copa em nome do Neymar.

Belo texto, obrigada por me deixar fazer parte de suas obras. Aprendo muito.

Adriano Oliveira disse...

Uma situação como essa também ajuda a motivar, engrandece a conquista. Também acredito que a seleção brasileira terá força para chegar ao hexa. E Neymar faz parte de tudo isso. Obrigado!!