segunda-feira, 14 de julho de 2014

O "FUTEBOL DE RESULTADOS" APRENDEU A JOGAR BONITO


Depois de um vexatório 7 x 1, é normal surgirem teorias de todos os lados.
Todo mundo "já sabia", "o time é fraco" e o treinador "pior ainda". Todos parecem ter a certeza de porquê aconteceu e sobram planos infalíveis para, a partir de agora, renovar o futebol brasileiro.

Porém, existe algo bastante característico do brasileiro, e não só no futebol: o nariz sempre empinado, incapaz de procurar entender o que o outro faz de bom para ao menos tentar copiá-lo. Como fizeram conosco, no futebol.
Há pouco tempo, durante o auge do Barcelona campeão de tudo e que encantava o planeta com seu futebol total, o técnico Pep Guardiola disse que "o segredo de seu time era praticar um futebol rápido e envolvente, mantendo sempre a posse de bola". E que esse esquema era baseado exatamente no futebol brasileiro de três décadas atrás, mais precisamente na seleção da Copa de 1982, então comandada pelo técnico Telê Santana.
Sim, mesmo sem conquistar o Mundial na Espanha, aquela seleção se tornou uma referência do futebol bem jogado, como já havia acontecido duas Copas antes com o "Carrossel Holandês" do lendário técnico Rinus Michels.
Os europeus desenvolveram projetos baseados em nosso futebol, modernizando e aprimorando fundamentos, mais os aspectos físicos e técnicos, inerentes à evolução do esporte. Porém, mantiveram o nosso conceito de jogar, com velocidade e toque de bola, acrescentando organização e disciplina tática.
Júnior, Leandro, Falcão, Zico e Sócrates podem ser vistos em campo hoje atualizados no futebol de Sneijder, Schweinsteiger, Göetze, Robben e Iniesta.
A seleção da Espanha, que entre 2008 e 2012 conquistou duas Eurocopas e uma
Copa do Mundo, era o retrato quase fiel do estilo moderno de jogar do quase
imbatível Barcelona. E a Alemanha de hoje? É quase o espelho do Bayern de Munique, time mais badalado do mundo na atualidade e campeão europeu e mundial de 2013.
Ou seja, não são apenas esquemas táticos que funcionam. São filosofias de trabalho. Uma cultura de futebol que começa lá embaixo, nas categorias de base.
Os clubes alemães, por exemplo, adotam um padrão de jogo peculiar que começa nos times juvenis e chega até a seleção nacional. O tetracampeonato diante da forte Argentina no Maracanã é resultado de um trabalho de pelo menos uma década, não alterando a forma de jogar mesmo diante dos revezes nas Copas de 2006 e 2010.
Onde estão os craques brasileiros que serviram de referência para quase todos os
grandes clubes da Europa?
Quantos Ronaldinhos ou Neymares estão surgindo pelo país?
Pouquíssimos. Quase nenhum.
Hoje o foco é outro. As categorias de base dos times brasileiros não têm mais a preocupação primordial de revelar talentos. São balcões de negócios e atendem aos interesses do mercado, cada vez mais rentável para empresários e dirigentes.
Onde está o jovem habilidoso, ofensivo? Que avança driblando em velocidade com a bola grudada nos pés, sempre em função de fazer gols? Esse sim é o jogador genuinamente brasileiro que ainda existe por aí nos campinhos e que deveria ser lapidado, cuidado, valorizado. O moleque que arrisca, que parte para cima, que inventa dribles e caminhos dentro de campo. O craque.
Mas qual é a prioridade nas categorias de base? Qual é a mentalidade das pessoas responsáveis pela formação de novos meninos com DNA brasileiro, atrevidos, irreverentes? E por que não dizer até mesmo "irresponsáveis" com a bola nos pés?
Sem Neymar, o Brasil foi um time comum e desrespeitoso, pois o nosso treinador imaginou que poderia jogar de igual para igual contra os alemães.
É preciso repensar o futebol tupiniquim e resgatar a essência, o futebol travesso, produzir mais “inhos” correndo atrás da bola.
Menos William José, Luiz Gustavo, Edson Silva, Anderson Martins.. e mais Zico, Tostão, Dadá, Ronaldinho, Kaká, Robinho. Menos truculência e mais inteligência.
Hoje não revelamos boleiros ou baixinhos artilheiros nas bases. Mas atletas de laboratório, altos, robustos, sem ginga ou jogo de cintura, dotados de muita força física e resistência, mas que não sabem pensar o jogo, não conseguem driblar ou fazer uma jogada de efeito. Ficam o tempo todo tocando a bola de lado ou para trás, ansiosos por um erro de marcação do adversário, e torcendo para que o centroavante consiga cavar uma falta ou um pênalti, para quem sabe, o "especialista em bola parada" fazer o gol. Mas são essas as nossas "revelações" que atendem ao mercado de países com futebol inexpressivo, como no Leste Europeu, na Ásia ou na Rússia, mas que pagam bem e rápido.

Hoje não jogamos para vencer, como antigamente. Mas jogamos para não perder. Nossos treinadores, praticamente todos eles, são adeptos de um futebol feio, retrancado, defensivo, bem distante de nossas origens, da vocação para o talento, da improvisação e da invenção.
Estamos orfãos de nós mesmos, de nosso verdadeiro futebol. Não fazemos nenhuma questão de adotarmos uma nova mentalidade para que possamos usufruir daquilo que ainda produzimos tão bem. E o que foge à regra das mentes brilhantes de nosso futebol, como o aparecimento de Lucas e Neymares, se torna produto de exportação imediata. E lá fora não são capazes de desenvolver uma forma de talento nato, autêntico, genuíno. Brasileiro.
Os europeus estão bem a frente dos brasileiros porque simplesmente modernizaram um jeito de jogar futebol essencialmente latino: técnico, ofensivo, rápido, envolvente.
O tradicional "futebol de resultados" alemão se aprimorou e hoje faz muitos gols. O 7 x 1 sobre o Brasil em plena semifinal de Copa do Mundo é a comprovação disso. Um "tapa na cara" no país do futebol que ficou para trás.
O aprendiz foi mais inteligente e aprendeu além do que o mestre ensinou.

2 comentários:

Maria Silva disse...

Parece o comercial da Nike
, aquele dos clones.

Adriano Oliveira disse...

Exatamente. São os atletas fabricados em laboratório, produzidos em série para atender à demanda crescente do mercado russo ou asiático, por exemplo. Programados para marcar, correr e chutar, não para jogar futebol de verdade.