domingo, 31 de agosto de 2014

NA HORA DA PESQUISA, QUEM É O TORCEDOR?


Na semana que passou foi divulgada a mais recente pesquisa em nível nacional sobre torcidas, realizada pelo instituto Ibope e encomendada pelo jornal esportivo "Lance!".
Pela metodologia utilizada, esse tipo de pesquisa é superficial. Por quê?
Primeiramente, porque é necessário distinguir o torcedor do simpatizante.
Será que o Flamengo, mesmo com o advento da internet e a transmissão massiva pela TV dos torneios europeus, possui realmente mais de 32 milhões de torcedores? Todas as pessoas que responderam a pesquisa e que dizem torcer para o Flamengo sabem pelo menos o nome de quatro jogadores do atual elenco? Todas sabem dizer contra quem será o próximo jogo e quando e qual foi o último título conquistado pelo clube? Então seria justo a pesquisa classificar quem não sabe o básico de seu "time do coração" como um torcedor?
Torcer para um time porque é o mesmo do pai, do irmão, do namorado ou do marido não faz alguém "torcedor". No máximo, um simpatizante. Gosta daquele time por influência direta ou indireta.
Exemplo: Meu avô (que Deus o tenha) era corintiano fanático. Teve oito filhos, entre homens e mulheres. Um deles é corintiano. O restante se dizem corintianos. Porém, mal sabem quem é o atual goleiro da equipe. E se no almoço de domingo eu perguntar se "o Dentinho deve ser titular no jogo das 16h00", responderão que sim. São torcedores? Para o Ibope, sim.
Uma partida importante do Corinthians sendo transmitida ao vivo na tarde de domingo e a TV sintonizada em algum programa de auditório. Então são esses torcedores que representam os corintianos em uma eventual pesquisa?
O Flamengo, por exemplo, criou uma enorme campanha institucional para angariar 60 mil associados nos últimos dois anos. Por que tanto esforço para um time que possui mais de 32 milhões de torcedores espalhados pelo Brasil inteiro?
Uma pesquisa confiável deveria ter acuracidade maior para identificar quem são, de fato, os torcedores de um clube e não apenas anotar em uma planilha o nome de uma equipe que uma pessoa escolheu por um motivo qualquer. Afinal de contas, o Brasil é o "país do futebol" e, sendo assim, todo brasileiro precisa então ter um time para "chamar de seu", correto? É mais uma questão cultural do que de identificação com o clube para o qual diz torcer.
Qualquer pessoa pode gastar R$ 200 para comprar uma camisa oficial e se dizer "torcedor". Mas também precisa saber onde e contra quem seu time vai jogar na próxima rodada, além de como está sua situação no campeonato. É o mínimo para ser classificado como torcedor. Por que os torcedores são "clientes em potencial" de um clube, ao contrário dos simpatizantes. Os torcedores consomem, vão aos estádios, geram audiência, acompanham e compartilham tudo sobre seus times. Os simpatizantes só ouvem falar.
Outro dado curioso da atual pesquisa: a torcida do Atlético-MG ultrapassou a do Cruzeiro. Só por que o ex-time de Ronaldinho Gaúcho ganhou um título expressivo em 2013 depois de décadas? Se for assim, porque então o Flamengo continua sendo o time brasileiro mais "querido" apesar das campanhas sofríveis na última década?
A paixão por um time de futebol não pode ser explicada por números ou estatísticas. Se torce pelo time pela capacidade que ele possui de mexer com nossas emoções e não por que está mal ou bem nas competições que disputa, tampouco porque ele possui mais ou menos torcedores. Não se mede uma torcida por seu tamanho numérico, mas pela força do sentimento de cada torcedor, que são somados individualmente. Aí se tem uma torcida no sentido próprio e não no sentido figurado.
O Flamengo é o time de maior torcida, depois vem o Corinthians, seguido pelo São Paulo, etc. Isso eu já sei desde quando jogava no campinho com bola de capotão. Contudo, esses números jamais me fizeram "mudar de lado" mesmo durante um longo jejum de títulos, quando meu time sequer ganhava um torneio de par ou ímpar na esquina.
Por essas e outras razões, é difícil confiar em uma pesquisa que pode fazer mudar de lado ou  desaparecer torcedores de um time. A não ser que os tais "desertores" sejam meros simpatizantes.
Pesquisas sobre torcidas deveriam ser bem mais substanciais. Da forma como são elaboradas, servem apenas para confirmar ao mercado que um determinado time pode ser mais "rentável" que outro e, baseados nisso, para os empresários escolherem em quais uniformes vão estampar suas marcas. Também podem ser a"referência" utilizada pelas emissoras para mensurar o espaço de cada clube em suas grades de programação. E para a dona dos direitos de transmissão dividir as cotas de televisão entre eles. Ou então para definir quantas páginas dos jornais devem ser destinadas para esse ou aquele time.
Mas para o torcedor de verdade, que não vê o futebol apenas como negócio, pesquisas como essa não servem para nada.

Pesquisa "Lance!Ibope" sobre os 18 clubes com maiores torcidas do Brasil: http://nolance.net/1tUcl6d

2 comentários:

Nayana A. Peres disse...

É bem isso que te disse essa semana.
Simpatizar e torcer são coisas distintas.
Parabéns pelo texto. Bom com as palavras como sempre.

Adriano Oliveira disse...

E a maioria dos torcedores são simpatizantes, fora a parcela considerável que sequer possui um time. Obrigado!