segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O DOMINGO DE GANSO E GABRIEL


Em comum, Paulo Henrique Ganso e Gabriel Barbosa têm o clube em que ambos cresceram e foram projetados para o futebol.
Ganso, um pouco antes. Gabriel, neste momento.
Paulo Henrique Lima, que depois se tornou Ganso, fez parte da terceira geração de Meninos da Vila que conquistou títulos e encantou o país ao lado de Robinho, Neymar, André, Wesley e companhia. Foi decisivo e maestro de um time que jogava um futebol ofensivo, ousado, de toque de bola envolvente e que fazia muitos gols. Atrapalhado por seguidas lesões e com rendimento em declínio, entrou em rota de colisão com a torcida e dirigentes. Em meio à desavenças e desafetos, a lua-de-mel acabou, foi taxado de mercenário e deixou o clube que o revelou sob moedas atiradas por torcedores que tanto o idolatraram um dia. Ressentido e após uma novela quase interminável, foi jogar no rival na expectativa de logo partir para algum clube grande da Europa, o que sempre foi seu maior desejo.
Gabriel começou a aparecer quando Ganso desapareceu. Fez fama ainda na base, a Jóia sendo lapidada, a esperança sempre acesa de que existe algo de misterioso naquele lugar tão abençoado pelos deuses do futebol, onde o raio costuma cair com certa freqüência. A safra de novos meninos não era tão boa quanto a anterior do colega Paulo Henrique Ganso, mas aquele jovem tinha algo diferente, se sobressaía, era atrevido, driblava, sabia fazer gols. Tinha o DNA daquele lugar. O mesmo de Ganso.
Na tarde ensolarada de um domingo de agosto, pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro, o estádio do Morumbi aplaudiu a redenção de Paulo Henrique Ganso. E viu mais uma molecagem desses meninos tão atrevidos que sobem a serra. Meninos que já sambaram sobre o escudo e que tantas vezes dançaram em frente à torcida dos donos da casa, que bateram pênalti com irresponsável paradinha sem tomar conhecimento de quem estava a sua frente, que já fizeram gol de letra, que driblaram, que sorriram, que provocaram como Gabriel após bater o pênalti neste domingo de sol. Rogério de um lado, bola do outro. Dedo em riste pedindo silêncio à torcida. Bate-boca com o goleiro-artilheiro. A juventude desafiando a experiência. De novo. Um menino que pela ousadia tão peculiar desses que vêm da Baixada já se candidata à ídolo. Talvez ainda nem tanto pelo que faz com a bola nos pés, mas pela personalidade e o novo capítulo de audácia naquele palco tão acostumado às provocações desses indigestos visitantes.
O domingo que também foi de Ganso. O golaço, a comemoração efusiva, com raiva, gritante, que devolveu ao são-paulino o talento que havia sido trocado pela raça. O momento da libertação, da vingança contra aqueles que o rejeitaram, talvez até mesmo daquela criança que tirou a mão ao cumprimentá-lo no primeiro jogo por seu novo time em sua ex-casa. O momento de passar a borracha no jogador problemático, questionado e irregular. O momento de devolver as moedas atiradas sobre ele com juros. A hora de provar que o talento sempre prevalece. Como nos velhos tempos, quando estava do lado dos meninos abusados como ele.
O domingo em que o brilho de Ganso se libertou das amarras do rancor. Da vingança do craque incompreendido.
O domingo de um Gabriel audacioso, vilão, motivo de piada, provocador, que divide sua própria torcida. Que pretende ter uma história para contar.
Um domingo com todos os ingredientes da essência do futebol.

2 comentários:

Maria Silva disse...

Esse moleque Gabriel precisa comer muito arroz com feijão para ter um domingo que chegue ao menos aos pés do que o Ganso fez com o Santos. Ganso jogou muito e esse meninho ai... Esta trilhando um caminho que nem cruza a esquina da avenida que Rogério Ceni cruzou mais de mil vezes.

Adriano Oliveira disse...

Falando em "arroz com feijão", o que o Ganso fez no domingo, que deixou boa parte dos são-paulinos “impressionada”, nada mais era do que o “arroz com feijão” de sempre dos santistas há quatro, três temporadas, e não esporadicamente como hoje. Era normal. E não estou comparando as atuações entre ambos, pois não tem comparação.
Gabriel ainda é sim um moleque e, dessa forma, age como um. Longe de ser um ídolo. Menos, bem menos. Mas se postulou a isso não pelo que faz hoje com a bola nos pés, mas pela petulância e audácia de provocar quem provocou, no lugar e da maneira como provocou. Tem personalidade, atiçou a rivalidade, temperou o clássico. Assim como fez o então menino Diego ao comemorar um gol sobre o escudo do São Paulo no mesmo Morumbi e que também causou enorme repercussão. Aliás, exatamente o que outros também já fizeram recentemente no Morumbi ou na Vila, inclusive o próprio Ganso.
Gabriel está bem distante da categoria e da qualidade do Ganso, que de um jogador diferenciado de anos atrás se tornou um bom jogador com lampejos acima da média, como na partida diante do cube que o revelou no último domingo. Um clássico que, aliás, teve um sabor todo especial para ele. Sabor de vingança. E eu acho que ele tem todo o direito de extravasar, fez a diferença no jogo e marcou um golaço diante de quem o rejeitou, segundo ele próprio.
Sobre as “mil vezes” que Rogério já cruzou a avenida, é resultado da longevidade que possui no São Paulo. Gabriel tem menos da metade da idade de Rogério e somente um ano como profissional. Porém, no futebol nem sempre a experiência se sobrepõe à juventude, como já vimos nos clássicos "SanSão" mais recentes.
No caso do último domingo, o moleque conseguiu exatamente o que queria. Só não conseguiu ainda mais notoriedade porque o São Paulo conseguiu o gol da vitória quase nos acréscimos. Com méritos.
Futebol é isso. E é excelente que seja assim mesmo. Senão vira jogo de tênis e perde toda a graça.